Reflexão sobre uma liberdade possível
Nós somos prisioneiros da nossa biologia. Querendo ou não, nosso modo de agir, de pensar, de sentir é condicionado por nossa natureza fundamental, evoluída num ambiente marcantemente diferente do atual.
Como podemos realmente ter liberdade, sendo ela submetida a tantas restrições? Como podemos ser livres se nosso auto-controle é um recurso finito? Se tantas vezes nos aflige o dilema de Paulo: “pois o que faço não entendo: não pratico o que quero, mas faço o que aborreço.” (Romanos 7:15)
Sempre me surpreende (mas não devia) como repito constantemente os mesmos erros, como minhas decisões são influenciadas por emoção e instinto. Também me delicio com o fato de eventos aparentemente insignificantes do passado impactarem completamente nosso futuro (mas isso é assunto pra outro post).
Uma liberdade possível
Liberdade não é fuga da realidade. Em nossos devaneios, imaginamo-nos mais racionais, mais potentes sobre nossa natureza do que realmente somos. A tentativa de “emplacar” uma liberdade absoluta, platonizada, sempre esbarra na realidade; nossa natureza será um obstáculo instransponível, invariavelmente levando essa tentativa ao fracasso.
Acredito numa liberdade possível, não numa liberdade descarnada. Como podemos, então, ser livres?
Um bom começo é, conhecendo as peculiaridades da biologia humana, utilizar essas peculiaridades a favor do que desejamos fazer e do que desejamos alcançar. Como no aikidô, em vez de lutar contra as forças biológicas para alcançar a liberdade, devemos conhecê-las e utilizá-las a nosso favor. Utilizar nosso “modus existendi” como veículo para alcançar nossos intentos.
Por onde podemos começar? Existe um campo vasto de estudo, conhecido por psicologia comportamental, em que se realizam experimentos para identificar, empiricamente, como de fato se comportam os seres humanos. Pesquisas também levam à identificação de vieses cognitivos, desvios comuns do comportamento racional esperado.
Ter consciência da falibilidade do conhecimento e da nossa cegueira para certas coisas também é extremamente importante para contrabalancear nossa tendência de superestimar a validade de nossas crenças.
Enfim, é um caminho difícil, mas possível, para aumentar nossa liberdade efetiva, embora talvez nossa liberdade imaginada pareça menor, quando ganhamos maior compreensão das influências biológicas sobre ela, e agimos utilizando essa compreensão.
